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COP26: estamos enxugando gelo enquanto a Humanidade passa fome e o Planeta derrete literalmente.

Enquanto Humanidade, nós já sabemos onde estamos, e também sabemos onde queremos chegar em prol de um desenvolvimento sustentável. Chamamos de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), os 17 ODS da Agenda 2030 do Acordo de Paris. Nós não apenas sabemos onde estamos e onde queremos chegar, também sabemos qual é o caminho necessário, quem deve fazer o que e quanto precisamos investir. Sabemos tudo isso, mas ainda assim estamos muito distantes do desenvolvimento sustentável. Por que será?

No dia 12 de novembro de 2021 foi encerrada a 26ª Conferência das Nações Unidas, também conhecida como COP 26 (“Conferencie of the Parties”). Sediada em Glasgow, na Escócia, e com o Reino Unido de Anfitrião. A conferência é um dos marcos de acompanhamento dessa jornada coletiva em prol de um futuro mais próspero para a Humanidade e o Planeta Terra, e por isso reuniu lideranças, ativistas e especialistas de 200 países. 

 

Quais foram os principais resultados da COP26? 

De maneira bem simples e objetiva, estejamos de acordo ou não com os comprometimentos realizados, podemos dizer que a COP26 deixa três principais acordos:

     –  Reforço da agenda sobre as mudanças climáticas: em geral os discursos e os comprometimentos giraram em torno da necessidade de mobilização de recursos para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) do Acordo de Paris, sendo a prioridade segurar o aumento da temperatura global em até 1,5º C;

     –  Regulação do mercado de carbono e acordos sobre combustíveis fósseis: durante a COP26 foram circulados diferentes rascunhos de alteração do artigo 6* do Acordo de Paris. No começo, as propostas falavam em “eliminação do uso do carvão e dos combustíveis fósseis”, no texto final ficou acordada a “redução”. Pela primeira vez o documento aborda a redução gradativa dos combustíveis fósseis e do uso do carvão, além de apresentar propostas de regulação do mercado de carbono que ainda não são unanimidade entre os especialistas, embora tenham sido assinadas pelos países. 

     –  Comprometimento com recursos financeiros: novamente, houve um compromisso dos países desenvolvidos em financiar anualmente U$ 100 bilhões até 2025, além de garantir a promoção de transparência na implementação das promessas. Vale lembrar que este compromisso não é uma novidade, e já não estava sendo cumprido.

No final, a COP26 não foi um fracasso, porém também não foi um sucesso. Diante desse contexto, a pergunta que fica é: estamos caminhando no ritmo que deveríamos caminhar? 

Não precisa ser especialista em sustentabilidade ou mudanças climáticas para responder isto. Basta fazer uma pesquisa rápida no Google, e analisar algumas fontes de informações confiáveis (sugiro ler os relatórios da ONU ou do Banco Mundial, por exemplo), para descobrir que “não, enquanto Humanidade, não estamos caminhando no ritmo necessário”. 

Para se ter uma ideia, segundo o Social Progress Index, se mantivermos o ritmo das mudanças atuais, a previsão é de atingirmos a Agenda 2030 apenas em 2073 – ou seja, teremos um atraso de 43 anos no cumprimento das 169 metas dos objetivos de desenvolvimento sustentável. A América Latina é quem está no ritmo mais lento, e quem realmente pode fazer uma grande diferença são países como EUA e China.

Além disso, segundo informações da International Finance Corporation (IFC), ligada ao Banco Mundial, para o cumprimento da Agenda 2030, há uma necessidade de investimento global entre U$ 3,3 e U$ 4,5 trilhões ao ano.

Se considerarmos uma movimentação do mercado financeiro global aproximada de U$ 350 trilhões,  descobrimos que a necessidade de investimento é de apenas 1% dos ativos do mercado financeiro global (considerando a necessidade de investimento de U$ 3,3 trilhões ao ano). A primeira pessoa que me alertou para este fato foi o Marco Gorini, presidente do conselho Anga Din4mo. Estamos falando de investir 1% dos ativos em uma agenda extremamente necessária para garantir o futuro da Humanidade no planeta terra.

Parece um investimento razoável, não?

Pois bem, quando na COP26, os líderes globais se comprometem com um investimento anual de U$ 100 bilhões até 2025, eles estão criando uma narrativa positiva para a mídia e a população em geral (“investimento de U$ 100 bilhões ao ano”). No entanto, este fato, por si só, carrega duas preocupações principais:

     1. Investimento 33 vezes abaixo da real necessidade

Um investimento anual de U$ 100 bilhões é o mesmo que U$ 0,1 trilhões – é óbvio, eu sei, mas o óbvio precisa ser traduzido. Portanto, o comprometimento de investimento representa apenas 3% da necessidade mínima de investimento global (U$ 3,3 trilhões), e apenas 0,03% do mercado financeiro global (aproximadamente U$ 350 trilhões). De duas uma: ou ninguém sabe fazer conta direito (não acredito que seja este o caso), ou estamos apenas enxugando gelo e trazendo discursos vazios enquanto a Humanidade passa fome e o Planeta Terra derrete literalmente.

    2. Não cumprimento dos compromissos atuais

O que nos deixa ainda mais preocupados, é o fato de que atualmente os países desenvolvidos não estão cumpriram o último acordo de investimento anual de U$ 0,1 trilhões ao ano. E vale lembrar que este valor representa apenas 0,03% do mercado financeiro global. Ou seja, acabamos de reforçar um compromisso muito aquém da real necessidade mínima e, que desde o início, não  estamos seguindo.


Veja que interessante: nós já sabemos onde estamos e sabemos onde queremos chegar. Nós sabemos o que precisa ser feito, por quem, quando e por quanto precisa ser feito. Nós temos os recursos disponíveis. Temos urgência da Humanidade e do Planeta Terra nessa agenda. Porém, estamos caminhando em um ritmo muito aquém da real necessidade da Humanidade.

Então, por que estamos falhando coletivamente? Qual seria o ponto cego? 

Eu gostaria muito de ouvir a sua opinião sobre essa pergunta. Por favor, deixe a sua resposta a essas perguntas nos comentários do artigo no Linkedin. 

O ponto cego, na minha humilde visão, é justamente não estarmos considerando o ODS Zero (“o nível de consciência de nossas lideranças, de nossas instituições e da própria sociedade”). A primeira pessoa que me apresentou este conceito foi justamente o Marco Gorini, presidente de conselho de Anga Din4mo. E é justamente sobre a relevância do ODS Zero que pretendo abordar no próximo artigo, buscando fazer a conexão com a sua perspectiva.

Muito obrigado.

* o Artigo 6 do Acordo de Paris aborda a estrutura de cooperação internacional para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Representa um dos artigos mais críticos do acordo, pois pode significar o rompimento ou avanço no cumprimento dos objetivos.

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