Resumo
Após diversos estudos de materialidade conduzidos com empresas brasileiras, identificamos um padrão: cerca de 76% dos temas considerados materiais por stakeholders (colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros e sociedade), não são citados espontaneamente pela alta liderança (C-Levels e conselho).
Esses temas emergem como relevantes para as lideranças apenas quando apresentados de forma estimulada, ou seja, quando a liderança é exposta aos temas.
O ponto central não é negligência.
É algo mais profundo. As reais demandas e necessidades dos stakeholders não estão disponíveis para as lideranças no momento de tomada de decisão estratégica.
Esse gap representa hoje uma das maiores fontes invisíveis de risco, desalinhamento cultural e destruição de valor.
O Problema
A maior parte das organizações ainda opera com uma lógica interna de percepção.
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- Estratégia definida no topo
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- Indicadores financeiros como linguagem dominante
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- Informações de stakeholders chegando apenas depois, sendo filtradas ou fragmentadas
Como consequência, a liderança acredita estar capturando as prioridades externas, mas na prática está operando em “RRs” (Realidades Reduzidas).
Todos os dias, Clientes, colaboradores, fornecedores e parceiros tem acesso aos reais problemas e oportunidades da empresa…. e, por sua vez, as lideranças enxergam a empresa por dashboards incompletos.
Nos estudos conduzidos, essa dinâmica se repete. Stakeholders citam como prioritários temas como Comportamento das Lideranças, Processos e Estrutura Organizacional. Lideranças, espontaneamente, citam apenas uma fração disso.
Nosso ponto de vista
Isso não é falta de Importância. É falta de Sistema.
Esse fenômeno não ocorre porque as lideranças “não se importam”. Ele ocorre porque as empresas ainda não possuem um sistema que transforme percepção em inteligência estratégica.
Porter já mostrou que vantagem competitiva depende de capturar sinais externos antes dos outros, e Freeman mostrou que valor sustentável depende de alinhar stakeholders reais, não abstratos.
Fato: Os stakeholders não falham em comunicar, são as empresas que falham em não escutar de forma estruturada.
Se 76% dos temas materiais não chegam ao topo, então riscos não são precificados, oportunidades não são priorizadas, cultura é interpretada incorretamente, decisões são tomadas de maneira parcial (sem enxergar o problema real), e os relatórios viram compliance, não estratégia.
Materialidade, nesse contexto, não deveria ser um exercício anual, e sim um problema contínuo de governança.
Conclusão
O mercado está mudando rapidamente. IFRS S1/S2 exige integração financeira e materialidade real. CSRD exige rastreabilidade e dupla materialidade. Gerações novas exigem coerência, não narrativa.
O custo não está no tema ignorado.
Está no tema que era relevante, era conhecido pelos stakeholders, mas não estava presente no radar estratégico, até virar crise, turnover, boicote ou perda de confiança. Isso é destruição de valor.
As empresas que irão liderar o futuro não serão as que produzem mais relatórios. Serão as empresas que possuem a capacidade contínua de tomar decisões melhores e orientadas à geração de valor.
O diferencial competitivo do século XXI será transformar percepção dispersa em inteligência integrada, transformar escuta em governança, e transformar materialidade em execução estratégica.
76% dos temas relevantes não estão ausentes porque não importam.
Eles estão ausentes porque não chegam.
Esse desafio não é cultural. É estrutural.
Dr. Pedro Paro
Fundador e CEO da Humanizadas
17 / 02 / 2026